Apesar das cores,
uma ausência...
Apesar da vida,
uma inexistência...
Apesar de tudo, tanto mundo em nós...
Seremos nós os autores do mundo?
Pedir-te-ia que morras comigo
se tivesse a certeza que renasceríamos juntos numa nova realidade.
Assim me quedo entre torrentes de mundo que jorra de mim... sentes?

>ky


 
>Colagem:ky
Projeção do desejo
Segundos paralelos


O 'tempo' é um senhor temperamentalQue nos surpreende com seus matizes ondulantes...
O tempo é um revelador de cores...
ky.:


>Colagem:ky

REFLEXÕES

OSCAR WILDE
Em 
A DECADÊNCIA DA MENTIRA




“A Arte só expressa a si mesma. Tem uma vida independente, como tem o Pensamento, e se desenrola simplesmente em um sentido que lhe é peculiar.

Não é necessariamente realista em uma época realista, nem espiritualista em uma época de fé.

Longe de ser criação de seu tempo, está geralmente em oposição direta a ele, e a única história que nos oferece é a do seu próprio progresso. Por vezes volta sobre seus passos e ressuscita alguma forma antiga, como sucedeu no movimento arcaico da última arte grega e no movimento pré-rafaelista contemporâneo.

Outras vezes adianta-se absolutamente à sua época e produz uma obra que outro século posterior compreenderá, apreciará e gozará.
Em caso algum representa sua época.

Passar a arte de uma época para a própria época é o grande erro que cometem todos os historiadores. “




WILDE, Oscar A Decadência da Mentira. In. __________ Obra Completa. Tradução de Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, Ltda., 1961”.
Albert Einstein
Em
EDUCAÇÃO EM VISTA DE UM PENSAMENTO LIVRE






“Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade”.

“Estas reflexões essenciais, comunicadas à jovem geração graças aos contactos vivos com os professores, de forma alguma se encontram escritas nos manuais. É assim que se expressa e se forma de início toda a cultura”.

“É preciso, enfim, tendo em vista a realização de uma educação perfeita, desenvolver o espírito crítico na inteligência do jovem. Ora, a sobrecarga do espírito pelo sistema de notas entrava e necessariamente transforma a pesquisa em superficialidade e falta de cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o recolha como um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa”.




EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Tradução: H. P. de Andrade. São Paulo: Circulo do Livro
OS DEGRAUS
(Mario Quintana)





Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...





QUINTANA, Mario. Baú de espantos. 4a. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1988.
Pablo Neruda
Em
Ainda




XVIII

Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
Não, não se desfia a rede dos anos: não há rede.
Não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a ação, nem o silêncio, nem a virtude:
a vida foi como uma pedra, um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal
que subiu e desceu queimando-se em teus ossos.





NERUDA, Pablo. Ainda. Tradução de Olga Savary. 2a. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1977.
Friedrich Nietzsche
Em
O Viajante e sua sombra.






39 – Origem dos direitos

“Os direitos remontam geralmente a um costume, o costume a uma convenção momentaneamente estabelecida.

Ocorre uma ou outra vez ficar satisfeito, de parte e de outra, com conseqüências que resultam de uma convenção formalizada e ocorre também ficar com preguiça de renovar formalmente essa convenção; continua-se assim a viver como se esta tivesse sido sempre renovada e, aos poucos, quando o esquecimento lançou seu véu sobre a origem, acredita-se possuir um edifício sagrado e inabalável, sobre o qual cada geração deve continuar a construir.

O costume se tornou então uma coação, mesmo quando não tivesse mais utilidade que se via primitivamente, no momento em que a convenção havia sido estabelecida.

– Nisso os fracos encontraram, desde sempre, sua sólida fortaleza: estão inclinados a eternizar a convenção aceita uma vez, eternizar o privilégio que lhes foi transmitido”.






NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Viajante e sua Sombra.Tradução: Antonio Carlos Braga e Ciro Miranda. São Paulo: Editora Escala, 2007.
Epicuro
Em
Pensamentos



“A quem não basta pouco nada basta.”

“De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade.”

“Não deve supor-se antinatural que a alma ressoe com os gritos da carne. A voz da carne diz: não se deve sofrer a fome, a sede e o frio. E é difícil para a alma opor-se; antes, é perigoso para ela não escutar a prescrição da natureza, em virtude da sua exigência inata de bastar-se a si própria.”

“O sábio que se pôs à prova nas necessidades da vida, melhor sabe dar generosamente que receber: tão grande é o tesouro de íntima segurança e independência dos desejos que em si possui.”




EPICURO Pensamentos. Tradução de Johannes Mewaldt e outros. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.

Sobre o autor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Epicuro
O BARCO VAZIO 
(Chuang Tzu)(trecho)

Se um homem atravessar um rio
E um barco vazio colidir com sua própria embarcação,
Mesmo que seja um mal-humorado,
Não terá muita raiva.
Mas se vir um homem no outro barco,
Gritará que ele reme direito.
Se o outro não ouvir o grito, gritará de novo,
E mais, começando a xingar.
Tudo porque há alguém no barco.
Se o barco estivesse vazio,
Não gritaria nem ficaria com raiva.

Se você conseguir esvaziar seu barco
Ao atravessar o rio do mundo,
Ninguém lhe porá obstáculos,
Ninguém procurará fazer-lhe mal.

CHUANG TZU, considerado o maior escritor taoista de cuja existência se tem notícia, escreveu sua obra no final do período clássico da filosofia chinesa, de 550 a 250 aC.

MERTON, Thomas. A Via de Chuang Tzu. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.
LA ROCHEFOUCAULD
Máxima 17

“A moderação das pessoas felizes provém da tranqüilidade que a boa sorte dá ao seu temperamento.”

Máxima 20

“A constância dos sábios não é mais que a arte de encerrar a agitação em seu coração.”

Máxima 22

“A filosofia triunfa facilmente dos males passados e dos futuros, mas os presentes a vencem.”

Máxima 41

“Os que se dedicam muito a pequenas coisas, tornam-se, ordinariamente, incapazes das grandes.”

Máxima 84

“É mais vergonhoso desconfiar dos amigos que ser por eles enganado.”

François de La Rochefoucauld foi um nobre que escreveu apenas dois livros. Um de memórias e outro de máximas. Filho do duque de Poitou, suas máximas foram publicadas pela primeira vez em 1664, anônimas. Retrabalhadas, reapareceriam em 1678. La Rochefoucauld faleceu em 1688.


LA ROCHEFOUCAUD, François VI de. Reflexões e Máximas Morais. Tradução de Alcântara Silveira. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1969.

Nietzsche

Em
Da Utilidade e dos inconvenientes da história para a vida.



“É em função do que o presente tem de mais elevado e de mais digno que tendes o direito de julgar o passado, é explorando ao máximo as vossas nobres qualidades que haveis de adivinhar aquilo que no passado merece ser observado – o que é grande.

Só é possível julgar entre iguais.

Do contrário, o passado será rebaixado até o vosso nível.

Acreditai apenas na história que provém dos cérebros mais raros, e haveis de descobrir a qualidade de espírito do historiador quando ele for obrigado a formular uma verdade geral ou repetir uma verdade conhecida.

O historiador autêntico deve ter força para transformar numa verdade nova o que é conhecido de todos, e para exprimir com tanta simplicidade e profundidade, que a profundidade faça esquecer a simplicidade, e a simplicidade faça esquecer a profundidade.

Não se pode ser, simultaneamente, um grande historiador e um idiota”.

NIETZSCHE, F. Considerações Intempestivas. Tradução de Lemos de Azevedo. Lisboa: Presença, 1976.
“Para possuir o mundo da cultura precisamos reconquistá-lo incessantemente pela recordação histórica, que não significa simplesmente o ato da reprodução.
É uma nova síntese intelectual – um ato construtivo”.
(CASSIRER, Ernst. Antropologia Filosófica. Tradução de Vicente Felix de Queiroz. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1972)
Aquele sorriso me fez
ir ao banheiro
retocar o batom
 
>Desenho:D'Cezar
Sem intenções,
Estabeleci regras de xadrez:
Pôs a mão,
tem que levar.



Quem arrisca previsões para o futuro destas questões:

1 - Direitos Autorais;
2 - Relacionamentos Afetivos e Sexuais;
3 - Mercado 'empregatício' [empregos];
4 - Meio ambiente;
5 - "Religiosidade / Espiritualidade".

Quanto a mim:

1 - Acredito que caminhem para relações mais pessoais
... (autor / usuário), baseada em comprometimentos éticos;
2 - Acredito que passem a ser vistos e vividos de forma desasociada;
3 - Acredito aos poucos seja tranferidos para relações independentes,
... onde a responsabilidade esteja intimamente ligada às responsabilidades
... e competências individuais;
4 - Acredito que restará muito pouco do "muito" que conhecemos
... e ainda temos;
5 - Acredito que atinja um grau de esclarecimento e "espiritualidade"
... maior, aumentando o comprometimento e respeito do ser-humano com
... todas as formas de vida.



CUBO



As pessoas criam mundos ao redor de si.
Mundos que se perpetuam em dimensão e profundidade.
Mundos para se proteger do que elas odeiam, ou para se refugiar no que elas amam.
Criam um universo de isolamento, que ao entrar, o sentimento pode ser de liberdade, vasto, eterno em suas pequenas dimensões físicas. Um quarto de adolescente pode ser uma galáxia para ele e seus temores com o externo.
Uma cela para um preso é um universo. Pequeno, oprimido e dilacerante.
Complexos interiores são universos que uma pessoa trafega, vagueia, se perde, se martiriza, enquanto se eterniza o cárcere problema. Pode ser um complexo minúsculo, bobo. Mas para quem sofre é um cubo invisível, quase impossível de se libertar.
Outros vivem num cubículo aparentemente pequeno de sentimentos interiores. Mas que se perdem na extensa dimensão amorosa, onde latitudes e longitudes são, por assim dizer, imensuráveis. Esse é o universo dos que compreenderam a essência da palavra amor. Esse é o universo minúsculo demais para a grande maioria dos mortais, imersos em seu gigante e desproporcional ego.

>Henrique Goldman

-Tomando minhas as palavras de Henrique Goldman, sigo o raciocínio:
“Presos ou solto, nós, seres humanos, somos muito cegos e sós. Quase nunca conseguimos transcender os nossos estreitos limites para enxergar os outros e a nós mesmos sem projetar o nosso próprio vulto na face alheia e a cara dos outros na nossa”. Como dizia Sartre, ironicamente: “O inferno são os outros”. E por isso sofremos tanto, perdidos e atordoados no labirinto escuro e gelado que não sabemos se é nosso ou alheio.

COMPENSAÇÕES


 Desespero é coisa que atropela o tempo e as ações com sua fúria inútil. Mas nem todos são dados a ele.
Por isso ela invejou o personagem de um livro, desespero não a visitava e assim ela cumpria os dias com relativo controle.
Confortou-lhe, entretanto, o pensamento de que o tempo e certa dedicação eram ingredientes fundamentais que a fariam envelhecer pra melhor. E assim o fazia. Da aparência cuidava com minúcias e sem exageros. Mas nas profundidades a idade na certa vinha como um prêmio de muito já ter vivido. O coração lhe saía pela boca com menor freqüência e algumas conversas e situações podiam se dar sem grandes esforços de convencimentos. Dessa maneira procurava acreditar que afastava de si a possibilidade do maldito desespero.
Mesmo assim sabia, por experiência e estrada, que algumas sensações e percepções aparentadas por semelhante intensidade tornavam a vida indiscutivelmente mais interessante. É como um preço que se paga. Não fosse ela acometida eventualmente pelo inútil desespero, na certa também não experimentaria outras intensidades de melhor procedência.
E o amor.

ky.:
>Colagem:ky

ORBITAL

Às vezes a noite é só uma unha de lua
ou de carne rasgada e uma estrada de leite...
ky.:

Uma noite...


De sonho,de carinhos,de pele,
contato,sem excessos,sem profundidade,
apenas na beira do precipício,sem cair,
mas apenas amando cada estrêla que via.


'As filhas do botânico'
-filme de rara beleza e sensibilidade,uma pedrada
no charco contra a homofobia.
-Realizado por Sijie Dai,o mesmo realizador
de 'Balzac' e 'A pequena costureira'.

DOMINGO



Pronto, que vou me render ao tamanho dos meus braços e das minhas pernas.
 Vou a lugar algum agora, me deixem.
Tudo o que quero lá fora cabe no meu quarto,
 no meu piano e nas cores das minhas tintas.
Estou pequenina, minúscula, ocupo metade do meu espaço habitual.
Cutuco uma saudade pra sofrer um pouquinho.

Sofrer um pouquinho colore o céu com mais azul
e derrama um pequeno drama no meu borrão de tinta.
Acho que é uma flor que se pinta.
E que se abre porque outro caminho não sabe.






GUARDADOS




No baú de esquecimentos botões já tiveram roupa.
A renda teve um certo vestido.
Cada pequeno objeto em sua estampa de inércia se finge interrompido.
A flor seca ainda é habitada da lembrança de umidade.
De cheiro de terra, saudade.
O bilhete amassado, de uma que fui de mim,
é ainda impregnado.

Meu bem deitada perto das ondas permanece calma,
como se fosse parte ou causa dessas ondas.
Não fala uma palavra sequer.Sequer sabe falar,
mas sabe dizer,muda,o quanto é capaz
de me surportar.

Palavras ditas ao setes ventos:

> Eu só preciso de dois minutos para conquistá-la,
um para me declarar e outro pra mudar de idéia.

> Eu me lembrei a pouco que fiz muito por você.
mas agora de que vale ser gentil ou ser fiel
se no fundo ainda tens um sentimento raso?

> Existem duas coisas em você que me fascinam:
a distância e o que você não diz.

> Pensar em você é uma tempestade,mas não pensar
consegue quase ser pior.

> A saudade é um passado fantasiado de presente.

> Amar é arrumar o armário todo dia.

> Posso ficar horas sem te ver,não meses.

> Como são os sonhos do outro lado do sono?

>Busco refúgio na sua insegurança,
seremos para sempre ou para nunca?

> Enquanto houver nuvem,haverá sempre um céu incompleto.

> triste é ser feliz na hora errada.

>Não interprete meus sonhos,são meus...

>Contradizendo o que eu nunca disse - Eu te amo!

> Nem você nem o café me deixam dormir.
E isso não é uma crítica.

> Enquanto eu imagino você quase deprimida,jogada numa cama mal-feita.
Eu faço e desfaço poemas,sumo e consumo seus pertences,monto e desmonto
caixinhas,onde guardo e aguardo seu coração que não quer se entregar.

> O amor é o que sobra da obra-prima que é sentir.

> Busco em ti o que tens de pior.
Teu lado ruim me traz tanta coisa boa,inclusive pe principalmente,você
- O lado mais prazeroso da dor.

>Às vezes preciso ser ridícula para convencer os loucos que sou feliz.
Às vezes ridiculizo minhas necessidades para convencer a felicidade
que sou louca.

Rainha de Copas

Sou a Rainha de Copas, de mim derramam corações. O plural deve-se ao exagero, um coração não me basta, atropelo meu destino por vocação ao desastre.


Cala-te, mulher, retoma-te, abre teus baús de sedas e brilhos, renova teu perfume, exala, provoca, sabes bem o que não cabe em ti e onde teu pranto estanca, vá ligeiro.

Convoco então meus soldados, ......., mas é este o meu exército? Assim, perdida estará mais esta batalha!

E por que continuar?

Não sei outro caminho.

Ah! Abre porque outro caminho não sabe, não é?

É.

Pobre rainha.

Rainha - o R é maiúsculo, minúsculo neste momento é o meu preenchimento. Sou a Rainha de Copas e confesso: o coração é só um.

Um só?

Um, só.

Huuummm...., rainhazinha pobre.

Pois é.

MAIS UM TEXTO



Parto pra uma viagem,
miragem de um outro lado,
dado que esgotada uma imensa batalha
falha de enganosos pressentimentos,
fomento de insistência
da demência de um sonho.
Proponho então virar a esquina,
menina extraviada numa mulher
sequer esquecida, que o coração não tem memória
- história repetida,
descabida e inevitável.
Adorável a besta vida
atribuída a ilusão à realidade
em que há de se viver que é preciso e precioso.
Gostoso o vento
e lamento ir sozinha
minha curva é sinuosa
gostosa a chuva, mas não conheço o rumo.
Aprumo um querer que já não me sobra
-obra de desencantamentos e desvios.
Tardio o sonho num corpo que envelhece
pois amanhece só lá onde não se sabe
e não cabe desistir à beira da minha estrada de poeira,
guerreira que sou, que procura
e jura que existe.
Insiste e vai, não se sabe pra onde.
Esconde o cansaço e separa as águas
- mágoas de um lado, de outro, provável loucura,
pura chama que não se esgota,
gota de vinho caída sobre o papel
no céu do meu desenho, provável paisagem
na aragem de tons da minha aquarela. Com lápis de cor
decoro meus sentimentos e no meu estojo, uma lembrança
de esperança nenhuma. Algum sofrimento
é alimento pra mais um texto ilustrado, que é de onde eu parto.



Serenata

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"

Cecília Meireles



Abismar pra cima, rumo ao céu
Cansada das minhas imperfeições e dos meus despreenchimentos, providenciei uma ou duas conformidades. De nada me serviram, pois que tenho natureza inquieta. Todo o tempo que tenho pra frente ficou subitamente comprimido no meu peito, paralisante e explosivo. Busquei um repertório de quietudes pra tomar uma gota a menos do meu ansiolítico. Em vão. Acordar pela manhã ficou sendo tarefa complicadíssima, é preciso treinamento pra tomar meu café sozinha e respirar ao mesmo tempo.
E tinha um poeminha que era assim:

CONSTATAÇÃO

Sou demorada para auroras
Só clareio lá pras tantas do dia
Meu sabiá não fugiu da gaiola
Meu bem-te-vi não te viu

É isso por hoje.


Queria beijar todas as bocas
me embrulhar em todos os lençóis
me desenhar em todos os muros
andar em todos os caminhos
me deliciar em todo mel
sofrer todas as dores
viver todos os amores
me despedaçar em todos os finais
e acontecer em todos os começos
me embriagar em todas as bebidas
viajar em todas as drogas
conhecer todas as cidades
inebriar-me em todos os desejos
fechar todos os olhos
de prazer ou de dor
queria ser cidadã de todos os mundos
acariciar todos os corpos
enveredar em todos os becos
receber todos os chamegos
queria ser mulher e menina
queria todas as loucuras
gritar todos os gritos
gemer todos os gemidos
me molhar em todas as águas
e me encharcar de prazer em todas as camas
Queria me deitar debaixo de todos os lençóis
queria acordar em todas as casas
comer todas as comidas
falar todas as línguas
e morde-las também.
Queria dançar todas as musicas
cantar todas as canções...
Queria ser todas as notas
Queria voar em todas as direções
e pousar em todos os pousos
queria ser vida, em todas as vidas e
quero morrer todas as mortes.
Queria perdoar todos os erros
elogiar todos os acertos
Dançar em todos os palcos
sonhar todos os sonhos
queria ser fêmea em todos os cios
agua em todos os rios
me molhar em todas as chuvas
e me secar em toda toalha.
Queria ter todos os corpos
ser de todas as raças
sorrir de toda graça
e chorar de toda tristeza
queria ser todas as amantes
ser todos os casais
e suspirar todos os ais.
Queria escalar todas as montanhas
mergulhar em todos os rios
ser todas as lendas e histórias
queria ser inesquecível.
Queria ser insubstituível
queria toda a paz, todo sono
doce e embriagado
quero o meu corpo nu e ensolarado
doce e amargo,desejado e odiado.
Quero ser eu.
Sem apelos, nem limites.
Sem laços nem cadeias
sem dor e sem magoas
Quero a vida, intensa e absolutamente minha.


É aí, quando tudo se dá a ver (como em Big Brother, os reality shows, etc), que se percebe que não há mais nada a ver. É o espelho da banalidade, do grau zero, onde se faz a prova, contrariamente a todos os objetivos, da desaparição do outro, e talvez mesmo do fato de que o ser humano não é fundamentalmente um ser social.” (Jean Baudrillard)
CAMPANHA CONSTITUTIVA COMBATE AO OLHAR PARANOICIZANTE ALIENANTE BIG BROTHER

No Mundo Gay do domingo passado chamávamos a atenção para a alienação do Mundo Gay no Big Brother. Pois bem, não vamos tentar ver onde não há nada a ver, mas pelas repercussões em jornais e também em diversos não-espaços gays na blogosfera fomos a ver a simulação do olhar onde nada havia a ver.

O fru-fru em uns, principalmente em blogs e portais gays, era um tímido selinho entre dois bbb gays. Mas não podia ser diferente já que não poderia se realizar, mesmo que, como dizia nossa avó, arrancasse o ‘chaboque’ e o sangue jorrasse na telinha totalitária, mas impotente.
Do lado da moral e dos bons costumes, o opiniático fóbico-rancoroso assemelha-se à pílula vencida que o deputado federal Marcelo Serafim (PSB-AM) receitou em seu twitter – essa ferramenta web de direita, como diz Mauro Carrara -, dizendo que “escancarar o beijo é um desrespeito às famílias”. Muitos dizem que Serafinzinho pôs a perder a gestão de seu pai, Serafim Correa, quando prefeito de Manaus, entregando na bandeja a prefeitura para Amazonino; com tais atitudes, não está longe de perder a sua.
Dentro da “casa”, segundo notícia dos Amigos do Lula, enquanto rolava o selinho hiper-real ao som da lendária Will Survive, música do filme Priscila, a Rainha do Deserto, um outro integrante, que tem uma suástica nazista tatuada no braço, tascava: “Está tocando o hino deles. Melhor não ficar perto, senão complica”. Segundo ainda o atuante blog, o Ministério da Justiça está “preocupado com uma possível demonstração de homofobia” para com os integrantes assumidamente gays do programa.
Também nas ruas ouvem-se umas e outras, como um velho, não tanto pela idade – pode-se estar velho aos 2 anos e, ao contrário, jovem aos 102 -, que disse não assistir mais o Big Brother, pois agora BBB significa Bobagem, Besteira e Boiolagem.
Tanto o frisson quanto a homofobia estão certos para a Globotária, que quer os globotáricos todos envolvidos na falsa polêmica, a única forma de salvar a vertiginosa decadência do Big Brother, fazendo tudo pela audiência, como diz oToda Forma de Amor.
Compor com isso, seja por proximidade ou por preconceito, está na mesma linha de segregação e anulação não apenas do Mundo Gay, mas de toda forma de relação autêntica e real. Nulidade das relações no Big Brother, assim como em toda programação da Globo e todas suas congêneres.
Assim, reiteramos que a campanha deste bloguinho intempestivo é por um outro tipo de alienação: alienar-se do Big Brother; pois se o Mundo é Gay, não precisamos embotar o olhar tentando ver gay onde não há gay, onde não há fetiche transgressor às grades prisionais da sexualidade, mas apenas o fetiche sensabor da teratogenia hiper-real.
Aí sim, poderemos nos beijar manas com manas, manos com manos, manas com manos na cama, na escola, na pracinha… Este, o beijo que o embuste da tela total globólica nunca alcançará. Beijo cósmico, man@

>Blogger da Man@

POEMA PRA DANÇAR




 Eu queria                                                                                              
dançar um poema
Tocá-lo com os pés
Com os braços
trazê-lo ao prumo
Com um Eu giro
alterar seu curso

Dar-lhe espaço

Surpreendê-lo com um salto
Jogá-lo ao chão
arrastar, rolar, apoiar
Exaurir seu cerne
ao repetir, repetir
e repetir o que se repetiu
com um sempre
que se sabe finito
Queria dar-lhe meu tronco
(e o que dentro, no centro habita)
Possuí-lo com os quadris
mover
que tudo é movimento
E saber dar-lhe um fim
suado
e ofegante
.

INSTRUÇÕES PRA DEUS SE ACASO EU FICAR BEM VELHINHA



1- Sem uma saúde razoável, prefiro não chegar lá.
2- Que eu não caia na besteira de usar roupas de velhinha. Uma camiseta com estampa de borboletas e jeans certamente vai me cair melhor.
3- Que eu tenha dinheiro suficiente pra comprar ótimos produtos de beleza, incluindo os cremes de última geração e maquiagens bem modernas.
4- Que eu não seja acometida pela preguiça, a não ser quando estiver deitada numa boa rede descansando.
5- Se eu não tiver uma velhinha safadinha comigo, que as modificações hormonais me ajudem a não querer subir pelas paredes. Mas é claro que prefiro a velhinha safada.
6- Que haja velhas safadas que admirem a beleza das velhas bem cuidadas e tenham o maior tesão por elas e não pelas mais jovens, menos inteligentes e mais bobas.
7- Que a minha conversa seja mais interessante do que as que eu ouvi na sala de espera do oculista (já viu a quantidade de velhos nessas salas? – os olhos ficam cansados de ver com o tempo). E que eu possa sempre achar uma armação de óculos bem “fashion”.
8- Que minha filha não precise cuidar de mim, que esteja por perto só para bons casos e boas risadas (e para um bom colo, ou ombro, que esses nunca lhes vão faltar).
9- Que o tempo se estique pelo direito de não ter que trabalhar. Tem muita coisa boa pra caber nas minhas horas diárias.
10- Que eu continue  acertando  os presentes dos meus netos,que eles continuem sentindo conforto e liberdade na casa da vovó.
11- Como não é exatamente do Deus que eu devo esperar tudo isso, que não me falte alegria pra que eu mesma chegue
http://www.blogger.com/img/icon18_email.giflá.





UM TIPO DE GENTE



Tem gente que é afeiçoada à falta. Em tudo procura buraco,

 vazio, procura o que não há, o que supostamente falta,
 mesmo que ninguém tenha dado falta.
A fartura pode rodear essa gente, vai sempre haver algo que falta.
Essa gente gosta de queixar da falta, de planejar as próximas faltas, 

supor que alguma coisa vai faltar.
O dia pode estar lindo, falta sombra.
Se tem sombra, falta sol.
Se tem sol, falta chuva.
Se tem chuva, outra vez falta sol.
Até onde tem amor, amor não vê, vê falta.
Nos dias de celebração há uma prontidão em descobrir o que falta.
A falta acaba se afeiçoando a essa gente e não larga nunca mais.
Bando de gente ranzinza, que acaba não fazendo nenhuma falta.




Mesmo que teus ouvidos estejam além dos meus infernos
meus gritos acordarão os teus guardiões.
E se escutares, não conseguirás dormir
posto que alcançada pelas minhas chamas...


 Escrito por Sóstenes Lima

Carregava em si
muito mais que a leveza de sua própria aparição.
 Era beleza e poesia em estado luminoso.


 Escrito por Sóstenes Lima

O FIM








O Apocalipse é agora, now.
O fim dos tempos e das coisas
É chegada a hora do ômega
Estrelas cadentes já não passam ao largo
Anjos descem dos céus, taças cheias de pragas.
Muitos são os riscados do livro da vida
Os mornos já são o vômito de Deus.
Bestas com dez chifres e sete cabeças campeiam
Espalhando a blasfêmia e a ira
O Sol se apagou aos poucos, feito vela.
Tudo é morte sob o gelo antártico
Fogo e sangue saem das trombetas de sete anjos
Noites e manhãs fundem-se na escuridão
Ruas vazias, sem vida.
Uns poucos famintos sem rosto
Erram samurais, faraós, ciganos e odaliscas
Não há paz, só dor e ranger de dentes.
A Broadway é um deserto sem arte
Só fantasmas na grande ópera bufa
Alguns poucos zumbis vagam sem rumo
Párias sem casta, sem direitos, só tormenta.
As milenares baratas infestam tudo
Brotam mãos ressecadas das velhas tumbas
O futuro é apenas conceito remoto
desgastado, desacreditado.
Sem tempo cessa a esperança
Não há sonhos na iminência do abismo
O odor de enxofre sufoca, envolve e perfuma
Secaram o Ganges, o Nilo e o Yang - Tse
As religiões descumpriram suas promessas
Já não há Buda, Maomé ou Cristo.
É o fim da salvação.
Fiéis se amontoam, olhar fixo no céu.
Onde estão os apóstolos para o Juízo Final?
Pregadores escondem-se na sombra da descrença
Há serenidade na morte dos velhos
Deitam-se e são tocados pelo olhar gelado da morte
Angústia na agonia dos jovens
ansiando mais um minuto de vida
Olhos de vidro, pálidos, trêmulos
Sabendo que o amanhã jamais virá
Paris já não precisa da guilhotina
O óxido corrói profundo a Torre Eiffel
Não há movimento nem cor
Restam cinzas, pó, sombras do que já foi.
Flores murchas decoram antigas sacadas
Amazônia, galhos retorcidos fincados na areia
Nada cresce ou viceja no caos
Solitária borboleta voa sem poder pousar.
Pousar é descanso para seguir
Para seguir é preciso ter onde ir

INSÔNIA



É noite alta
Penso em Kafka
E se eu acordar barata?
Esquadrinho cada linha do teto
Cada centímetro de parede é conhecido
Aranha prestes a devorar a mosca,
parada, inerte, passiva
Enredada espera seu destino
Uma solidão quase sólida me abraça
Sufoco, entreabro a janela, brisa gelada
Burburinho contínuo ao longe
Murmúrio dissonante
Buzinas, motores, carros, se amalgamam
Confundem-se, mesclam-se, ruído surdo,
indeterminado, contínuo, grave
Impossível distinguir cada fonte
Fera ruge incansável pela noite
Rumorejo interminável, uníssono, gutural
O subúrbio permanece ileso, incólume
Quase indiferente ao tom profundo
Um dia talvez esse som se amplie e
envolva a periferia, movimento vibratório
Mas então estas cercanias já serão centro
Pássaros farfalham nas árvores
Nenhum pio, só movimento bulindo o breu
Sono agitado como o meu
E meu sono não vem
Não posso nem sonhar
Na cidade a noite se disfarça nas luzes
Escuridão travestida de pontos luminosos
O movimento não cessa,
Persiste querendo rasgar o negrume
Confundindo a todos com sons de dia alto
Um frio antártico abate o que se move
Sinto calor e proteção dentro do útero, meu quarto
Penso nos desgraçados, sin pan ni techo
Vagam sob a desproteção dos viadutos
Queria ser poeta e tornar sentimentos
em versos, estrofes, rimas ricas, ritmo
Mas só consigo pensar, pensar
Kafka se apossa das minhas lembranças de novo
Como posso acordar barata
Se nem consigo dormir?

MULHER













Mulher é hormônio e feromônio
Fragrância, perfume, cheiro animal
Mãe de Cristo esposa de deuses
Barriga, mama, leite, mamma mia
Sedução, olhar de cobiça

Atenas, atentas, obesas e nuas
Greve de sexo clamando por paz
Pele sedosa, amores e brilhos
Ventre fecundo, cordão do umbigo
Pernas abertas, janela do mundo

Serenas, guerreiras, passivas, ativas
Amazonas, mater et frater, matriarca
Doces e amargas, suaves sedentas
São negras, mulatas, cafuzas e louras
Negrume nos olhos ou puro cristal

Menina, criança, madura mulher
Pitomba, peitinhos apontam o céu
Andar de gazela com colo de nuvens
Lábios de carne, vermelhos molhados
O beijo, a língua, carícia e afago

Vergonha da burca
Mundo cindido na tela
Suor castidade, ânsia de romper
Castas, devassas, arremedos de amor
Sorrisos de êxtase, olhar de paixão

Arfante suspiro, gemidos tremor
Orgasmos sentidos e dissimulados
Fantasia de amor ou cumprimento do pacto
Sutis, orgulhosas, caladas na dor
Dor de parir suando e sangrando

Mulher minha mãe, irmã e amiga
Carola, crente, rapariga, atéia
Carente, casta, despudorada
Jocasta, Édipo filho e marido
Maldição sobre Tebas de um filho que é neto


É uma, são duas, milhares nas ruas
Nas praças esperam seus filhos fantasmas
Só caras e estampas, lembranças bacentas
Praças e Maio, de junho, de sempre
Traídas, castradas, privadas de voz.
Lua mulher, reflete o que vê, reflete o que quer

SITUAÇÃO...



Que está o tempo a se fechar em nuvens.
Que estão os vértices a se fecharem em linhas.
Que está a hora a se acabar em nada.
 E então chove.
E o que sei não é para se dizer.
Que me escutem outros sentidos, não os ouvidos.
Acharão onde não falto,
 onde algo surpreende,
 e me redime.



PERMANÊNCIA


Eu disse: - Senta, meu amor, ao meu lado, nesta sombra, neste chão adornado de amarelo das flores que o ipê desprende. Vem comigo imaginar que se desprenderão todas elas até que um ciclo inteiro se cumpra e outras tão amarelas brotarão e que isso é certo. Vem,meu amor,vamos falar de intimidades – fazemos isso tão bem, com propriedade e sintonia. Vamos falar e deixar que nossos olhos falem o que as palavras não sabem – fazemos isso tão bem. E então, lê comigo esses poemas como quem compartilha o vinho mais saboroso. Lê comigo até ficarmos tontas e saciadas. E assim se deu. E no verão que seguira, da tempestade, um raio interrompeu as possibilidades do ipê.

E isso sim, era certo.



PAUSA



Peço licença
pois em ti espreito, flor
a desprender em cada pétala
o arrastado desses dias

És bela, mas passas
e perdes teu viço
bem antes da minha pausa

estou a me prestar a nada

VISTA





Reinicio a vida
Vejo o mundo todo
do alto de um morro
De lá vejo um mar
de montanhas
E em cada contorno
que a tarde ondula
mora um segredo
em cada tom indecifrável
a cor da justiça
da compaixão

Assim como habita
entre as pequenas ondas
dos meus magros seios
todo o amor
que não consigo

FOTOGRAFIA



Minha imagem
caiu da fotografia
que ficou
subtraída de mim

O que restou no papel
foi coisa parecida com ausência
com despedida
com tempo que passa

Minha imagem
foi tentar outro sorriso
outra posição dos braços
outro ângulo de olhar

Ficou fotografia sem mim
e eu sem moldura

difícil não ter contornos

SPECTRO




Há um espectro de mim
que esparrama um rastro de hortênsias
e aroma de almíscar
É um fantasma inebriado
e diz obscenidades
Gosto de vê-lo pairando
e ouvir o seu canto
Belas são suas vestes de vento
e luz
Lá vai ele entre as árvores
te buscar e soprar em seu ouvido

o que você tem esquecido.

RETORNO



Apurados os apuros, ficou a mulher deparada com a única tarefa real e talvez a mais difícil. Dar-se a si mesma não como um prêmio, bem mais como dever e única saída. Tomar-se para si era como readmitir o eterno recomeço. Lembrou-se então de um sonho onde duas mulheres salvavam outras duas que se afogavam. No limite do risco da vida, se olharam, as duas mulheres salvadoras, e como se olhassem no espelho, executaram o gesto da salvação como uma coreografia. Debruçaram-se sobre as afogadas e no encontro das bocas, devolveram a elas o ar e a vida.
Nesse beijo ficou gravada uma remota dúvida, que mesmo remota, não perde a condição de dúvida.
Haveria sempre a coragem de buscar o pólo oposto, com a certeza do que nunca se encontra, com a humildade da falta eterna?
Haveria a coragem de recuar? Seria real outro caminho?
E na turbulência da volta, pensou a mulher nas funções, pois o síndico tocou a campainha, preocupado com o extintor de incêndio que havia sido roubado. E pensou se seriam as funções que davam sentido à vida.
Pois sim, as funções. As grandes, poderosas funções e as medíocres, muitas vezes igualmente indispensáveis.
Pequenas ilusões de que a vida é necessária.

PALPITAÇÃO




De me queixar
adoeci
De amar
sarei
Do seu beijo
me fartei
De palpitar
enfartei

(palpitei
um palpite
tão adequado
que ao seu lado
ressuscitei)

A MULHER LOUCA





A mulher louca pensou que não era mais.
Gastou uma pose nova e um discurso em vão.
Fez convocação de anjos e aguardou.
Ao achar que não era mais, deparou-se consigo e com sua miséria.
Habitava ela, a louca, adormecida no cerne da mulher.
Assustou-se, afastou-se, olhou e se viu da distância.
A distância era boa, lúcida e confortável.
Guardou a louca e aguardou.
Passaram-se os dias
a limpo.

CAUTELA


Debruçou-se à beira de um desejo e viu um abismo.
Não se precipitaria como de outras vezes.

Uma trilha havia de ser aberta, aos poucos, com prazer e trabalho. Tudo pedia para ser minuciosamente cuidado – que flores plantaria, o percurso, a largura da pequena estrada, as pontes, uma clareira, um mirante que facilitasse ver o nascer da lua cheia.
E nunca mais se esqueceria de uma cabana que abrigasse a solidão com conforto e sossego.

Debruçou-se à beira do desejo e viu um precipício.
Nenhum motivo para abismar-se.

PESSOA E PALAVRA



Tem pessoa
que encanta palavra
Tem pessoa que usa palavra em vão
Tem palavra que usa pessoa
Tem pessoa que usa palavra
Tem pessoa que não tem palavra
Tem pessoa que entorta palavra
Tem pessoa que planta palavra no chão
Tem pessoa que planta palavra na cara
de outra pessoa
que fica sem palavra
Tem palavra que eleva pessoa
que cura pessoa
que anula pessoa
Tem pessoa que leva palavra pra casa
Tem pessoa que domina palavra
Tem palavra que domina pessoa
Tem palavra que diz palavra
Tem palavra que diz pessoa
Tem pessoa que diz pessoa
Tem pessoa que diz palavra
Tem palavra que é gesto de pessoa
Tem pessoa que não vê palavra
Tem pessoa que não ouve palavra
Tem pessoa que enfeitiça palavra
Tem palavra que é qualquer coisa
que queira a pessoa
Tem pessoa que é qualquer coisa
que queira a palavra
Tem palavra que escapole de pessoa
(parece ter vida própria essa palavra)
Tem pessoa que escapole de palavra
(parece ter vida própria essa pessoa)
Tem pessoa que fica doendo depois de palavra
Pessoa vem antes de palavra
Tem palavra que fica
depois de pessoa
Tem pessoa que fica
além de palavra

Tem pessoa
e tem palavra

UM TIPO DE GENTE



Tem gente que é afeiçoada à falta. Em tudo procura buraco, vazio, procura o que não há, o que supostamente falta, mesmo que ninguém tenha dado falta.
A fartura pode rodear essa gente, vai sempre haver algo que falta.
Essa gente gosta de queixar da falta, de planejar as próximas faltas, supor que alguma coisa vai faltar.
O dia pode estar lindo, falta sombra.
Se tem sombra, falta sol.
Se tem sol, falta chuva.
Se tem chuva, outra vez falta sol.
Até onde tem amor, amor não vê, vê falta.
Nos dias de celebração há uma prontidão em descobrir o que falta.
A falta acaba se afeiçoando a essa gente e não larga nunca mais.
Bando de gente ranzinza, que acaba não fazendo nenhuma falta.

OUTRA CONVERSA



Você, de novo.
Quero invadir seu vestido.
Não pode.
Não sei parar.
Chegará a lugar nenhum de mim, minhas frestas não te cabem.
Trouxe lírios para que você enlouqueça.
Não, não mais, tenho só a lembrança de um perfume, e me basta.
Quero o seu medo.
Não, não mais. De ser quase nada me coube um início sem fim. Agora, fico sempre começando. Medo, nenhum.
Discordo para sempre.
Não quero te convencer e nem preciso. Desisti das tragédias, estou mais simples no meu belo vestido que retiro (ou é retirado) só no quando do meu consentimento e do meu desejo. E na terceira superfície que o contato ínfimo e absoluto entre os corpos provoca, não há fresta nenhuma que se preste a ser invadida por teias de palavras, lembrança de escuros, temores e abismos. Agora só presto pro amor.