Se não posso ir contra as regras,acho que não dou conta de viver.



Estou sempre de saco cheio do mundo oficial: trabalho,$$$,direitos e deveres,isso me desespera.
Uma das grandes aflições da minha vida é esperar o sinal abrir.Eu penso:como é que eu posso deixar a minha vida passar esperando o sinal verde?Isso é insano!Não quero esperar,quero passar...
Porque a vida é absolutamente revolucionária,vanguardista,sensacional.o tempo inteiro ela propõe o inesperado.A vida é movimento.O universo social é que vai parando o movimento da vida.Não quero ser personagem nem de regras,nem de texto,nem de ninguém.
-Não dá para pegar a regra o texto e pensar:essa pessoa quer que eu faça assim,logo, farei.Temos que ser criador.A interpretação vai ser sempre uma cópia do que a gente já conhece.Bonzinho,certinho,bonitinho,mas sem frescor.
A questão é o 'está convencionado'.Se estabelece uma regra para a vida das pessoas,que tem que ser de um jeito específico,e eu creio que cada vez mais que a vida das pessoas tem que ser única e livre,porque é também uma vida criativa.
O ser humano não é mais como era antes da física quântica,algo passivo,que tinha a ver com o belo,descobrir algo que já estava feito.Hoje as pessoas são outra,somos criadores e libertários,e é fundamental que sejamos assim.Eu quero dizer que a vida é objeto e obra onde quer que a gente esteja.
Sou uma inconformada com o mundo.Então,se eu não tiver mundos paralelos onde posso ampliar algumas coisas,propor,transceder,ir contra as regras,acho que eu não dou conta de viver.Porque sou completamente chocada com o universo,com o que o homem fez para ele,acho tudo uma loucura.desde os semáforos,o relógio,a hora de comer,de dormir,a política,o sistema médico,a escola,a data de aniversário e você tendo que estar feliz naquele dia...
Acho que nada disso serve mais.Tenho necessidade de criar outras regras.

-Minha relação comigo mesma é muito boa.É uma luta.mas se não fosse muito boa,eu não ia dar conta.
Eu me suporto porque a cada hora sou um jeito diferente do outro.Essa coisa da idade vai colocando a gente em lugares muito diferentes na vida,e ela vale a pena por isso.Eu dou conta de mim fazendo colagens,desenho,pinturas,leituras,privilegiando muito as relações -que são fundamentais para a gente de verdade-e a solidão,porque se não tiver solidão a gente não dá conta da gente.Tenho uma amiga de 68 anos que fala:"A vida é resistir".É você não ir perdendo você.Porque se não tomar cuidado,a sensação que tenho é que a gente perde a gente.
-Minha relação com o mundo foi sempre permeada pela minha mãe,ela era o lugar onde eu me acalmava.A vida inteira briguei muito com a minha mãe.Ela via um trabalho meu e falava:"isso não".Via um desenho e falava:"isso não dá".Ela era uma mulher muito dura,vanguardista,educadora e bailarina.Sempre valorizou a minha diferença.Eu era a grande,a muleque,ela falava:"Isso é o que interessa,isso é o que é bom,não precisa ser igual a todo mundo."Eu me sinto completamente nutrita por ela,que deu aos filhos uma imensa liberdade de olhar e mudar as coisas.E se tiver que brigar,briga.Não faz mal,não há que se concordar o tempo inteiro,não é salutar.Dói?Dói.Mas o sofrimento faz parte da vida.

-Em 2009 fiz 50 anos.Antes eu falava:caramba!,50,60,70 e pif.Agora decidi viver mais 50.Pode ser que eu morra amanhã,mas não quero ir amolecendo na luta.Não quero ir me acomodando na dor ou no desgosto ou numa espécie de já que é assim,então é assim...tenho vontade de ir abrindo espaço.Eu imagino melhor...
Encontrar com a velhice completamente ativa,no sentido do que a velhice pode significar:o jeito de estar nas coisas,a importância que é você ser referência.Quero se uma velhinha enlouquecendo.que se diverte o tempo inteiro.Ser incisiva,dura,não ser nem um pouco boazinha e ao mesmo tempo ser jovem no humor.Continuar sendo dona da minha vida.Obter todas as qualidades que fui aglutinando ao longo do caminho...

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